Suas pálpebras parecem pesar toneladas. Sua visão parece estar em meio à neblina, impossibilitando enxergar poucos palmos à sua frente.Encontra-se perdido, rodando sem direção, perambulando atrás do que lhe foi tirado. Seu emocional foi à machadadas partido. Suas desilusões pesam mais do que ele pode aguentar. Sente-se um lixo vagueando levado pelo vento. O pior dos lixos: impossível de ser reciclado. Não há cabeça que suporte tanto pressão, julgamentos; críticas, sem explodir. E não há ninguém que se importe com isso.
Caminha sem rumo, moroso pela multidão sem se dar conta de onde está. Entra no primeiro bar que encontra, senta-se afastado dos demais, pede uma bebida mesmo sabendo que não há bebida forte suficiente para fazer esquecer os outros porres de decepções e indiferenças. Ou as vezes em que esteve em princípios de overdoses de amor, no êxtase da felicidade, que se foram. Distrai-se facilmente com o gelo no copo, afogando-se em seus pensamentos mortificantes. Não há imunidade que consiga resistir de tanto mal feito a um coração passionalmente adoentado, jogado na privada suja de um banheiro de boteco, ao som do mais exorável dos boleros.
O último romântico passou a noite embriagado pranteando suas dores para um garçom, ou até algum taxista na volta pra casa. Não se lembra bem nem de seu endereço. Pensou em ir atrás da autora desse sofrimento ou pôr fim em toda essa tal desconsolação que o derrubou. Subiu no viaduto, olhou para baixo, os carros que ali passavam, as luzes da cidade. Por alguns segundos pensou em se jogar. Refletiu consigo mesmo por algum instante. Afinal, pra que suicídio? O mundo nos mata tortuosamente todos os dias, desde nosso nascimento. É como se nos fosse colocado um Garfo Medieval penetrando do queixo ao tórax, arrancassem os dentes com um torquês ou colocasse-nos sentados num Berço de Judas sentindo toda a crueldade da tortura medieval. Sem piedade, sem se importar se temos sentimentos ou não. Tortura-nos sem dó. E dói. Infecta. Mata. Até a gente ser como pedras ou icebergs. Duros e frios. Ou um animal tonto e apático.
O mundo é sádico. Querer viver nele é masoquismo. Conviver com ele é a melhor definição para suicídio. O mais lento e cruel suicídio. Desceu do viaduto e seguiu finalmente para casa. Deitou-se na cama e nunca mais desejou que o teto desabasse sobre si. Afinal, ele já estava se suicidando vivendo nesse mundo frio.
quinta-feira, 5 de julho de 2012
quarta-feira, 13 de junho de 2012
Souvenir
Só eu sei o quão intenso era meu desejo de desligar-me, como se desliga um aparelho eletrônico qualquer. Ser colocada numa estante feito uma lembrança boa; aquelas que a gente guarda com todo o cuidado e ao olhar pra ela, sorri. Ser lembrada com tanto êxtase; ou apenas surpresa. "Oh, você por aqui? Procurei-lhe por todo o canto" - eu estaria ali há tempos, que o pó veio e foi-se. Esperei-lhe notar-me. Esperei-lhe limpar-me. Esperei-lhe fazer-me voltar à vida. Mas não me encontro numa estante à ser exibida como um troféu desejado. Encontro-me onde nunca desejei estar: Fazendo parte de um calendário antigo guardado numa gaveta qualquer de uma estante velha jogada no sótão. E agora que posso eu fazer?
Dizem por aí que está fazendo frio lá fora. Ainda não saí daqui pra constar, mas só eu sei que esse frio não se compara ao que faz dentro da gente. Sabemos que sentimentos são como café que depois de esfriar, a degustação fica impossível. Tínhamos o calor; tínhamos sentimentos. Temos o frio; temos a apatia. Não temos poder sob os verbos. Não temos poder sob nós mesmos. E agora que podemos nós fazer? Enquanto à mim, esperarei o momento de você me tirar dessa gaveta - e deixar de ser apenas uma lembrança.
Souvenirs são grilhões que nos prendem a algo que talvez nunca tenha nos pertencido. Sozinhos na estante, a gente chora de saudade do tempo perfeito, mesmo sabendo que os sócios deste estão a rir e esqueceram, de tudo que foi vivido, o tudo que lhe manteve vivo. Idas e vindas da vida, uma hora estamos abrigados no peito de alguém, em outra esquecidos no canto das das memórias.
terça-feira, 3 de abril de 2012
5h24min
O mundo fez um retrato de mim. E eu não me reconheço nele. Será enganação? Uma farsa? Ou apenas estou inconformada por ser tachada. O mundo não me conhece, mesmo assim me pintou num quadro qualquer. Quase um 3x4. Insignificante e julgado. Talvez eu seja isso que foi pintado. Ou acredite nesse mundo alucinado. Quem sou eu, se não um rosto perdido? Procurando em cada peito um abrigo, vestindo luto, com o emocional partido. Quem se importa? O mundo já pintou aquela pessoa toda torta. Fora do senso-comum, fora dos padrões da moda.
Onde ganho espaço pra me expôr, se não em um calendário, no mês de novembro, esquecido na gaveta de uma estante velha. Com o rosto desfigurado, cansado. Tentando achar um meio de não ser rechaçado. De que vale? Que diferença faz? Eu não sei. Mal sei quem sou. Ou quem queria ser.
De que vale tantos sentimentos nobres e nenhum servo? Ter cartas de amor e nenhum carteiro para entregar a algum destinatário? De que vale tudo isso? A vida? Se não há razão para viver, quanto vale existir? Ajude-me a sair daqui. Desse retrato errado, pintado de mal grado.
Onde ganho espaço pra me expôr, se não em um calendário, no mês de novembro, esquecido na gaveta de uma estante velha. Com o rosto desfigurado, cansado. Tentando achar um meio de não ser rechaçado. De que vale? Que diferença faz? Eu não sei. Mal sei quem sou. Ou quem queria ser.
De que vale tantos sentimentos nobres e nenhum servo? Ter cartas de amor e nenhum carteiro para entregar a algum destinatário? De que vale tudo isso? A vida? Se não há razão para viver, quanto vale existir? Ajude-me a sair daqui. Desse retrato errado, pintado de mal grado.
terça-feira, 27 de março de 2012
O amor começa
O amor começa. Começa em meio à estação de metrô lotada; nas tardes de domingo à beira-mar; nas caminhadas na praça para espairecer; na sessão das duas no cinema. Sem explicação, o amor apenas começa. Na praça coberta de folhas que cairam no outono, no refrão da música de Chico Buarque; no final do campeonato disputadíssimo; à beira de uma colapso nervoso; na erupção de um vulcão; no barzinho da faculdade onde eram feitos os Happy-Hour; no intervalo da novela do horário nobre; entre as prateleiras da biblioteca; ele apenas começa.
Quando a esperança está perdida; quando o universo conspira contra; quando a vida vira de cabeça para baixo; quando o poeta perde a inspiração; o louco a insanidade ou o compositor o refrão. O amor começa, assim mesmo, sem explicação. Ele começa para impedir loucuras ou simplesmente permiti-las. Para dar razão às coisas, ou simplesmente tirá-la delas. E quem entende? Não carece entender, o que vale é sentir.
Enquanto uns buscam razão no sentimento, o amor começa. Entre mensagens recebidas na madrugada; afetos trocados no portão de casa; em um abraço acolhedor e apertado; na loja preferida de discos; na rua, entre tropeços e momentos lunáticos ao ver os faróis de carros; o amor começa. Começa para esquecer os que deixaram de recomeçar; morreram ou nunca cogitaram começar. Os amores começam, por vezes perduram, por vezes não passam de uma noite ou apenas de um relance em meio à multidão, e perde-se o príncipio. Começa quando a gente menos espera e termina quando pensamos que seria para sempre. Quando o amor acabar, espere um tempo. Porque o amor sempre começa.
Quando a esperança está perdida; quando o universo conspira contra; quando a vida vira de cabeça para baixo; quando o poeta perde a inspiração; o louco a insanidade ou o compositor o refrão. O amor começa, assim mesmo, sem explicação. Ele começa para impedir loucuras ou simplesmente permiti-las. Para dar razão às coisas, ou simplesmente tirá-la delas. E quem entende? Não carece entender, o que vale é sentir.
Enquanto uns buscam razão no sentimento, o amor começa. Entre mensagens recebidas na madrugada; afetos trocados no portão de casa; em um abraço acolhedor e apertado; na loja preferida de discos; na rua, entre tropeços e momentos lunáticos ao ver os faróis de carros; o amor começa. Começa para esquecer os que deixaram de recomeçar; morreram ou nunca cogitaram começar. Os amores começam, por vezes perduram, por vezes não passam de uma noite ou apenas de um relance em meio à multidão, e perde-se o príncipio. Começa quando a gente menos espera e termina quando pensamos que seria para sempre. Quando o amor acabar, espere um tempo. Porque o amor sempre começa.
sexta-feira, 23 de março de 2012
Relatos de uma Eremita
Há 16 anos que vivo isolada do mundo. Ou como prefiro dizer de forma mais sutil: retirei-me do mundo lá fora pra me refugiar no meu. Sabe, o "lá fora" nunca me agradou, então criei um lugar só pra mim, como eu queria que fosse. Sentimental, colorido, sem regras ou hierarquias, injustiças ou desamores. Dentro dele eu me inventava, quando achava que não estava bom; reinventava. Fazia a felicidade e acreditava nela. Multiplicava-me e satisfazia-me com tantos personagens. Pode parecer estranho, na verdade é. Talvez a essência da felicidade esteja na excentricidade. Não à toa que rimam.
Não tinha curiosidade de saber como era o mundo lá fora, porém era obrigada a frequentá-lo às vezes. Então eu saía do meu refúgio e encarava toda a hostilidade de um mundo frio. No começo, eu não sabia lidar muito bem. Então descobri maneiras das pessoas não me atingirem. Fechei-me em mim. Conversava com poucas pessoas, tinha pouquíssimos amigos, isso fazia eu me sentir menos só e vazia pra encarar esse cinzento mundo, que era um tanto quanto assombroso. Não que eu confiasse ou gostasse das pessoas. A maioria das vezes elas estavam falando - sem nada a dizer - e eu não conseguia dar-lhes atenção. Tanta mesmice, superfluidade, que serviam-me de sonífero. Eu até gosto de algumas pessoas, mas prefiro os animais. Eles nunca fingem gostar de alguém, dissimulam sentimentos ou mentem pra ser aceitos.
Se as pessoas parassem pra me ouvir, não entenderiam. Não falta compreensão ou empatia. Faltam pessoas que as exercitem. Bem como o amor, ah, o amor. A sociedade tornou o amor tão trivial. Pegaram seu significado, amassaram e jogaram no lixo. Agora todos andam exânimes; sem amor; sem razão; sem paz ou vida. Procurando uma casa ou peito pra chamar de lar. Por isso prefiro viver trancada em mim, esse é meu mundo. Lá fora? Prefiro chamar de Cemitério dos sentimentos. O que é.
Não tinha curiosidade de saber como era o mundo lá fora, porém era obrigada a frequentá-lo às vezes. Então eu saía do meu refúgio e encarava toda a hostilidade de um mundo frio. No começo, eu não sabia lidar muito bem. Então descobri maneiras das pessoas não me atingirem. Fechei-me em mim. Conversava com poucas pessoas, tinha pouquíssimos amigos, isso fazia eu me sentir menos só e vazia pra encarar esse cinzento mundo, que era um tanto quanto assombroso. Não que eu confiasse ou gostasse das pessoas. A maioria das vezes elas estavam falando - sem nada a dizer - e eu não conseguia dar-lhes atenção. Tanta mesmice, superfluidade, que serviam-me de sonífero. Eu até gosto de algumas pessoas, mas prefiro os animais. Eles nunca fingem gostar de alguém, dissimulam sentimentos ou mentem pra ser aceitos.
Se as pessoas parassem pra me ouvir, não entenderiam. Não falta compreensão ou empatia. Faltam pessoas que as exercitem. Bem como o amor, ah, o amor. A sociedade tornou o amor tão trivial. Pegaram seu significado, amassaram e jogaram no lixo. Agora todos andam exânimes; sem amor; sem razão; sem paz ou vida. Procurando uma casa ou peito pra chamar de lar. Por isso prefiro viver trancada em mim, esse é meu mundo. Lá fora? Prefiro chamar de Cemitério dos sentimentos. O que é.
quinta-feira, 22 de março de 2012
Hospício ou Mundo Real?
Mundo Real, proibido ultrapassar(limites)
"No mundo real, uma dose de desamor é suficiente para causar um porre de melancolia, uma ressaca de lástimas; dor de cabeça insuportável; coração partido e um desiludido a mais vagando sem rumo no mundo. Na loucura, isso tudo é lição e desamor não existe. Loucura é amar."
sábado, 17 de março de 2012
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